corpo ausente

absent body foi o nome que rascunhei para dar à sala da Rebecca Horn na Tate ontem depois de almoço. as máscaras de penas, tubos endovenosos e próteses de tecido faziam supor um corpo que, efectivamente, não estava ali. o corpo do meu diário também não está aqui. foi dinamitado pelo tempo, sobrevivendo-lhe apenas os amontoados linguísticos que achei de valor. mas o valor é circunstancial e, hoje, fazer sobrepõe-se. write, write, write, rite, rite, rite, right, right, right, riot, riot, riot.

 

Londres, 3 dezembro 2015

Eu e Tristão

Tristão não existe porque fui eu que o inventei. E Tristão debate-se com o mais essencial problema identitário desde que forjei a necessidade da sua existência. Tristão procura-me no cimo das escadas de incêndio e atropela-me de costas durante a noite, mas nunca me encontra. Eu fecho os olhos quando ele cruza a ombreira da porta e concentro-me no colarinho desalinhado da camisa de flores que lhe roubaria do guarda-fatos se ele se adormecesse de uma vez. Tristão finge então que não houve madrugada que tivéssemos rompido, juntos, a ouvir Wagner em surdina. E eu nego-lhe aquele sumo venenoso que me deixou na portaria e ignoro afinal o número de sardas que lhe coroam os ombros. Tristão nunca me encontra sob as luzes estroboscópicas. Penso até que terá perdido o número da porta. Não sei o que faça agora.

coisas que não são a verdade

Fazia-me confusão que ele acordasse sempre com um olho preguiçoso. Parecia que lhe tinha afundado alguma raiva na cara durante o sono, porque, dia sim dia não, lá acordava ele com o rio vermelho no olho e uma auréola de carne intumescida à volta do glóbulo. Não era tanto a impressão física de um impacto desconhecido que me desagradava naquela visão; o que me inquietava era fundamentalmente a interferência que aquele inchaço tinha na identidade dele. Durante as primeiras horas do dia, até mesmo depois do sol já estar quente e de me doerem as pernas da corrida matinal, a deformação mantinha-se. Eu aprendi a viver com ela, porque era o meu papel e porque sabia que tinha de gostar de qualquer coisa nele além do que era visível. Descíamos as escadas soalheiras do prédio em silêncio – ele sempre à frente, eu sempre atrás – até ao café, literalmente da esquina, para engolir duas meias de leite mornas antes de entrarmos no autocarro. Depois de nós, havia sempre o trabalho. Mas, dia sim dia não, o que fazia realmente era sentar-me contrariada à mesa de um estranho que, por acaso, partilhava leves semelhanças com aquele homem que quotidianamente adormecia, pesado, depois de mim. Para minha própria protecção e por precisar de lhe dar mais do que ele já tinha, sorvia muito lentamente o café com leite enquanto imaginava uma espécie de prece ateia na minha cabeça. Ouve-me, que o sono não te seja de pedra; achas que sim, mas não o mereces.

ela.

A conta tem de ser feita por alto, mas acho que ronda os 20 anos. Sim, em 20 anos nunca a vi trancar a porta. Ouvi-a desligar o esquentador, passar a mão pelos quatro manípulos para tentar aferir a perfeita rectidão de um fogão desligado, senti-lhe aqueles 30 segundos de hesitação, enquanto olhava para tudo na cozinha garantido a si própria de que o sono poderia chegar em paz. Estava tudo bem. As casas mudavam ao longo dos anos – de uma rua para outra, todas nefastamente próximas umas das outras – e o ritual seguia na mudança, embalado em sacos pretos do lixo entre os tachos, os poucos livros e os casacos de inverno. Era perfeitamente inocente, aquele verificar sistemático da cozinha; excepto no facto de não ter resquício algum de inocência. A verdade é que ela nunca tinha vivido sozinha antes. Saiu de casa dos pais para um apartamento comprado pelos pais dele e, embora eu não saiba com exactidão a cronologia, estou certa de que foi logo depois que ficou sozinha. Bem, não exactamente sozinha; eu estava lá. Imagino que lhe tenha sabido a emancipação. Uma casa onde era preciso desligar o esquentador, encher o frigorífico, levar o lixo, deitar a criança. Suponho até que, nos primeiros meses, lhe tenha sabido a liberdade. Com o primeiro ordenado comprou um Citizen clássico de pulso; muito discreto, porém elegante, que até marcava as fases da lua. Hoje, quando não o tenho ao pulso, fica guardado na minha mesa de cabeceira por persistente falta de pilha. Para o meu quarto, mandou fazer cortinados, roupa de cama e um abat-jour de candeeiro de um tecido levemente amarelo pontuado com flores. Começou a aprender ponto cruz. A realidade era − não duvido − simplesmente demais.

Apesar de ter dormido na cama dela até entrar na escola primária − sim, eu tinha medo do escuro, dos animais do Zoo que me esperavam à porta do quarto e da solidão − e de termos vivido juntas cerca de 17 anos, eu não sei quase nada sobre ela e ela desconhece-me por completo. Um dia, quando conseguir perceber o que significa fazer isto “a sério”, gostava de escrever a história dela. E a dele. E a minha. E, quem sabe, das pessoas que poderíamos ter sido.

À minha direita, está a minha mãe. Metade do pijama é rosa, a outra metade azul e só tem uma meia calçada. Ela murmura, porque está a separar lascas de, imagino, bacalhau escaldado e precisa de um incentivo para acabar a tarefa mecânica. Além disso, só oiço o fustigar do exaustor e o latejar da tampa da panela da sopa (de grão) quando deixa soltar o vapor excessivo. O meu pai vai entrar na cozinha dentro de uns dois minutos e vai perguntar como estamos, o que é o jantar e se deve acender a lareira. Durante este pedaço de tempo que vai demorar ainda mais dois dias, vamos fingir a nossa normalidade individualista, porque não sabemos fazer isto de outra forma. Eles, os dois, já souberem e acho que construíram talvez a melhor e mais implícita proximidade de que ouvi falar. O que fizeram um pelo outro (e um ao outro) tem tanto de mito, quanto de queda, e é difícil imaginar outra definição para amor que reconheça todos os abismos. Algures no caminho, perderam-se. Não sei se algum dia estiveram talhados para o quotidiano – imagino que não – e agora sobrevivem-lhe suficientemente. Bom, talvez fosse isto que aspiraram durante tanto tempo. Ainda mal avistam os cinquenta e já podem, finalmente, descansar, preocupar-se com as uvas que são más para o vinho neste ano ou com o sol que não chega para enxugar a roupa. Não sei o que teria feito se tivesse de viver a vida deles. Vivi parte dela e ainda não sei o que fazer com isso. A sopa está pronta, está na altura de desligar. Daqui a algum tempo, havemos de voltar aqui.

11/11

Falsete (do italiano falsetto, ou seja, falso) é uma técnica vocal utilizada pelos cantores para atingir registos mais agudos que os da sua frequência acústica natural. Serve para mimetizar os registos considerados tipicamente femininos como o contra-alto, o mezzo-soprano e o soprano. Pode por isso dizer-se que é uma fórmula humana para criar uma proto-verdade numa realidade de imitação. E têm sido muitas as proto-verdades geradas pela voz dos falsetes da pop. Os Bee Gees trouxeram-lhe o equivalente conceptual à brilhantina (que demora tanto a sair do ouvido como a supracitada substância pegajosa do cabelo); os Beach Boys deram-lhe a naturalidade do acidente; Jacko elevou-o a arte de carácter mitológico, formando a pedra basilar da pop que se lhe seguiu. E em 2002, Justin Timberlake deu-lhe Cry me a river.
Ora, não tenhamos ilusões sobre a falta de consensualidade da canção. É sabido que houve uma cisão na história da humanidade no pós-anos 80 do século passado e dela nasceram duas classes de pessoas: as que entendem Justin Timberlake e as que não entendem Justin Timberlake. É precisamente no fundamento desta cisão que se encontra o combustível que ainda acende a discussão sobre o falsete.
Desenhada com mestria pela mão de Timbaland, Cry me a river é um dançável murro no estômago, que facilmente congrega todos os elementos da tragédia grega: há hyubris quando Timberlake procura a vingança contra o destino; há o pathos bem introduzido pela naturalmente torrencial chuva do início; há a katharsis cristalizada na intercalação entre Timberlake e Timbaland e coroada pelo coro (com redundância incluída) nos últimos dois minutos da canção. Na verdade, Cry me a river é, acima de tudo, um imponente retrato do coração partido contemporâneo, que sofre retroactivamente séculos de más práticas na arte de contar histórias de amor. E não devemos por isso subestimar o poder do falsete de Timberlake na canção e a forma simples como espoleta no ouvido uma inesperada eufonia. É que está provado que um coração partido prefere sempre ouvir uma falsa verdade a uma inevitável mentira.