You spend half of the morning, just trying to wake up, half the evening, just trying to calm down

Acho que parámos de escrever porque nos deixámos inebriar pela rapidez. Acho que parámos de escrever porque deixou de ser necessário escrever para fazer alguém reparar. Acho que parámos de escrever porque reparar nunca deixou realmente de significar prestar atenção, nunca se resignificou numa reparação. Acho que parámos de escrever porque tínhamos medo que ninguém lesse. Acho que parámos de escrever porque sempre soubemos que não éramos assim tão boas. Acho que parámos de escrever porque essa deixou de ser, simultaneamente, a nossa ligação interior e exógena, o vaivém das informações sintetizadas. Acho que parámos de escrever porque foi fácil destinar uma caterva de vocábulos ao desuso, porque foi fácil assimilar o anglocentrismo linguístico, porque de súbito nos apercebemos de que, em Brooklyn e Greenpoint e Hackney e Peckham, todas sentíamos o mesmo. Podia dizer tantas outras cidades. Escrever tem uma determinada gravidade, não tem nada de gasoso, por muito efémera que seja a sua génese. Escrever é transportar o peso de uma perna para a outra e tentar alongar o pescoço novamente como se uma linha te puxasse em direcção ao céu. Não resulta, obviamente, porque terias de estar atenta à quantidade de advérbios de modo que usas e dominar melhores formas de evitares lugares-comuns. Não sei ainda se acredito que isso ocorre por acidente (o acidente caiu em descrença nos tempos mais recentes), mesmo que se forcem os automatismos de sempre. Vamos chamar-lhe antes de livre arbítrio. E, com isso, lá vais alternando o peso entre as pernas. Escrever ainda é como a falha de carácter que Lispector não quer que retires ou como a fissura na estrutura por onde Cohen disse que iria entrar a luz ou o infinito riso que Bukoweski viu no amontoado de páginas. Escrever é também aquela técnica japonesa de preencher cerâmicas partidas com ouro e é a calcificação de um osso à volta de uma ferida antiga. Escrever é um alívio escatológico, mas também é uma contusão, um inchaço à volta do olho, um lábio roxo e moído por dentes. Escrever é um acto perfeitamente narcoléptico, porque, passadas algumas palavras e apesar do tendão preso ao fundo do cotovelo, já te adormeceste novamente no ritmo da repetição. Se estivesses a ouvir-te ditar o que escreves estarias a usar o tom do Ginsberg e nos intervalos suspirarias como o Paredes nos discos. Ao mesmo tempo, terias vontade de morder a língua e sangrar das gengivas porque todas as tuas referências são masculinas, o teu último nome é masculino, fodes melhor em masculino e é assim que nunca vais perceber nada de ti. Escrever é o veículo de uma ficção verdadeira. Devíamos antes dizer, usar a língua, a saliva, a glote, a traqueia, os lábios, o ar. Mas, convenhamos, escrever é distribuição. É responder o que vais fazer com isto. Vais esconder outra vez. Vais libertar-te da presunção de que não queres ser lida. Como é que vais responder à Catarina da próxima vez que ela te perguntar por que mostraste isto? Quem, afinal, queres tu que te leia? Onde é que está a história da tua mãe a soprar os dedos enquanto desfaz lascas de bacalhau fervido para mais um jantar em silêncio com a memória dos teus pais? Quem é que deixou a sopa em cima do fogão? Por que é que Tristão nunca te encontrou? Quem queres que leia isto? Ao mesmo tempo, penso na Angélica Freitas e penso, sobretudo, na Adelaide Ivanóva. Acho que sei quem quero que leia. E se fechar os olhos sei exactamente em que ponto da orelha quero enterrar o meu canino direito. É isso ser lida? Escrever é ser profundamente injusta e usar um número incorrecto de advérbios de modo para justificar uma certa erosão dos meus sentimentos. Escrever é assumir que a minha inteligência está presa na silhueta de um corpo qualquer sobre o qual não tive força para deixar marcas. Fui indiferente. Escrever é puxar com os dentes as peles secas dos lábios uma e outra e outra vez. É obsessivo, ridículo, pouco saudável e muito pouco prático. É um embaraço, é insuficiente, é pobre, é irrisório, é inútil. Escrever não fica melhor com a idade.

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corpo ausente

absent body foi o nome que rascunhei para dar à sala da Rebecca Horn na Tate ontem depois de almoço. as máscaras de penas, tubos endovenosos e próteses de tecido faziam supor um corpo que, efectivamente, não estava ali. o corpo do meu diário também não está aqui. foi dinamitado pelo tempo, sobrevivendo-lhe apenas os amontoados linguísticos que achei de valor. mas o valor é circunstancial e, hoje, fazer sobrepõe-se. write, write, write, rite, rite, rite, right, right, right, riot, riot, riot.

 

Londres, 3 dezembro 2015

Who needs identity?

Men act and women appear. Men look at women. Women watch themselves being looked at. This determines not only relations between men and women but also the relation of women themselves. The survey of woman herself is male: the surveyed female. Thus she turns herself into an object – and most particularly an object of vision: a sight. – John Berger, Ways of seeing (1972)

Receio bem que nos tenhamos estereotipado, radicalizando uma identidade baseada num conjunto de características definidas pela força da massa de consumidores/da massa que nos consome. Queremos voluntariamente público para o nosso palco.

Nota

A única pessoa com quem teria falado teria sido o caixa do supermercado. 200 g de abóbora, um molho de espinafres e um suicídio depois, não havia ninguém que afiançasse uma explicação para a sopa que deixou pronta a arrefecer em cima do fogão.

Eu e Tristão

Tristão não existe porque fui eu que o inventei. E Tristão debate-se com o mais essencial problema identitário desde que forjei a necessidade da sua existência. Tristão procura-me no cimo das escadas de incêndio e atropela-me de costas durante a noite, mas nunca me encontra. Eu fecho os olhos quando ele cruza a ombreira da porta e concentro-me no colarinho desalinhado da camisa de flores que lhe roubaria do guarda-fatos se ele se adormecesse de uma vez. Tristão finge então que não houve madrugada que tivéssemos rompido, juntos, a ouvir Wagner em surdina. E eu nego-lhe aquele sumo venenoso que me deixou na portaria e ignoro afinal o número de sardas que lhe coroam os ombros. Tristão nunca me encontra sob as luzes estroboscópicas. Penso até que terá perdido o número da porta. Não sei o que faça agora.

love factor

When I first heard these records, they touched on a thought that had been gestating for some time: that emotion is a scarce quality in underground music, where directness might be mistaken for simplicity or weakness. Oddly, appeal to the emotions has also become scarce in the discourse around music. From minimal drone to quiet improvisation to fucked-up rock. talking about the emotional impulse behind them, and speculating on what human needs they might fulfill has become less common, as music thinkers and critics buttress their ideas with genre-spotting and factual ephemera. The songs of Oneohtrix Point Never – and there is a definite lyrical quality, despite the absence of words – were a timely invitation to consider the music’s emotional state.

Before I talk to Lopatin at his Brooklyn apartment via Skype, I send him some notes I made when I first heard his music, when, with little in the way of information about who he was or what he did, I concluded that he was making love songs to his synthesizer. “Most of everything else in my studio I look to with some level of ambilvalence or suspicion,” he emails. “But there is a love factor there that feels real to me.

“In the avant garde sense, expression is very contentious,” he continues the theme. “Because it suggests some sort of romantic over-concern with yourself. But to me, expression can be just as removed and austere as any kind of non-personality-oriented sonic vice. It can be another illusion.”

Wire, February 2013