11/11

Falsete (do italiano falsetto, ou seja, falso) é uma técnica vocal utilizada pelos cantores para atingir registos mais agudos que os da sua frequência acústica natural. Serve para mimetizar os registos considerados tipicamente femininos como o contra-alto, o mezzo-soprano e o soprano. Pode por isso dizer-se que é uma fórmula humana para criar uma proto-verdade numa realidade de imitação. E têm sido muitas as proto-verdades geradas pela voz dos falsetes da pop. Os Bee Gees trouxeram-lhe o equivalente conceptual à brilhantina (que demora tanto a sair do ouvido como a supracitada substância pegajosa do cabelo); os Beach Boys deram-lhe a naturalidade do acidente; Jacko elevou-o a arte de carácter mitológico, formando a pedra basilar da pop que se lhe seguiu. E em 2002, Justin Timberlake deu-lhe Cry me a river.
Ora, não tenhamos ilusões sobre a falta de consensualidade da canção. É sabido que houve uma cisão na história da humanidade no pós-anos 80 do século passado e dela nasceram duas classes de pessoas: as que entendem Justin Timberlake e as que não entendem Justin Timberlake. É precisamente no fundamento desta cisão que se encontra o combustível que ainda acende a discussão sobre o falsete.
Desenhada com mestria pela mão de Timbaland, Cry me a river é um dançável murro no estômago, que facilmente congrega todos os elementos da tragédia grega: há hyubris quando Timberlake procura a vingança contra o destino; há o pathos bem introduzido pela naturalmente torrencial chuva do início; há a katharsis cristalizada na intercalação entre Timberlake e Timbaland e coroada pelo coro (com redundância incluída) nos últimos dois minutos da canção. Na verdade, Cry me a river é, acima de tudo, um imponente retrato do coração partido contemporâneo, que sofre retroactivamente séculos de más práticas na arte de contar histórias de amor. E não devemos por isso subestimar o poder do falsete de Timberlake na canção e a forma simples como espoleta no ouvido uma inesperada eufonia. É que está provado que um coração partido prefere sempre ouvir uma falsa verdade a uma inevitável mentira.

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