À minha direita, está a minha mãe. Metade do pijama é rosa, a outra metade azul e só tem uma meia calçada. Ela murmura, porque está a separar lascas de, imagino, bacalhau escaldado e precisa de um incentivo para acabar a tarefa mecânica. Além disso, só oiço o fustigar do exaustor e o latejar da tampa da panela da sopa (de grão) quando deixa soltar o vapor excessivo. O meu pai vai entrar na cozinha dentro de uns dois minutos e vai perguntar como estamos, o que é o jantar e se deve acender a lareira. Durante este pedaço de tempo que vai demorar ainda mais dois dias, vamos fingir a nossa normalidade individualista, porque não sabemos fazer isto de outra forma. Eles, os dois, já souberem e acho que construíram talvez a melhor e mais implícita proximidade de que ouvi falar. O que fizeram um pelo outro (e um ao outro) tem tanto de mito, quanto de queda, e é difícil imaginar outra definição para amor que reconheça todos os abismos. Algures no caminho, perderam-se. Não sei se algum dia estiveram talhados para o quotidiano – imagino que não – e agora sobrevivem-lhe suficientemente. Bom, talvez fosse isto que aspiraram durante tanto tempo. Ainda mal avistam os cinquenta e já podem, finalmente, descansar, preocupar-se com as uvas que são más para o vinho neste ano ou com o sol que não chega para enxugar a roupa. Não sei o que teria feito se tivesse de viver a vida deles. Vivi parte dela e ainda não sei o que fazer com isso. A sopa está pronta, está na altura de desligar. Daqui a algum tempo, havemos de voltar aqui.

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