ela.

A conta tem de ser feita por alto, mas acho que ronda os 20 anos. Sim, em 20 anos nunca a vi trancar a porta. Ouvi-a desligar o esquentador, passar a mão pelos quatro manípulos para tentar aferir a perfeita rectidão de um fogão desligado, senti-lhe aqueles 30 segundos de hesitação, enquanto olhava para tudo na cozinha garantido a si própria de que o sono poderia chegar em paz. Estava tudo bem. As casas mudavam ao longo dos anos – de uma rua para outra, todas nefastamente próximas umas das outras – e o ritual seguia na mudança, embalado em sacos pretos do lixo entre os tachos, os poucos livros e os casacos de inverno. Era perfeitamente inocente, aquele verificar sistemático da cozinha; excepto no facto de não ter resquício algum de inocência. A verdade é que ela nunca tinha vivido sozinha antes. Saiu de casa dos pais para um apartamento comprado pelos pais dele e, embora eu não saiba com exactidão a cronologia, estou certa de que foi logo depois que ficou sozinha. Bem, não exactamente sozinha; eu estava lá. Imagino que lhe tenha sabido a emancipação. Uma casa onde era preciso desligar o esquentador, encher o frigorífico, levar o lixo, deitar a criança. Suponho até que, nos primeiros meses, lhe tenha sabido a liberdade. Com o primeiro ordenado comprou um Citizen clássico de pulso; muito discreto, porém elegante, que até marcava as fases da lua. Hoje, quando não o tenho ao pulso, fica guardado na minha mesa de cabeceira por persistente falta de pilha. Para o meu quarto, mandou fazer cortinados, roupa de cama e um abat-jour de candeeiro de um tecido levemente amarelo pontuado com flores. Começou a aprender ponto cruz. A realidade era − não duvido − simplesmente demais.

Apesar de ter dormido na cama dela até entrar na escola primária − sim, eu tinha medo do escuro, dos animais do Zoo que me esperavam à porta do quarto e da solidão − e de termos vivido juntas cerca de 17 anos, eu não sei quase nada sobre ela e ela desconhece-me por completo. Um dia, quando conseguir perceber o que significa fazer isto “a sério”, gostava de escrever a história dela. E a dele. E a minha. E, quem sabe, das pessoas que poderíamos ter sido.

Anúncios

One thought on “ela.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s