coisas que não são a verdade

Fazia-me confusão que ele acordasse sempre com um olho preguiçoso. Parecia que lhe tinha afundado alguma raiva na cara durante o sono, porque, dia sim dia não, lá acordava ele com o rio vermelho no olho e uma auréola de carne intumescida à volta do glóbulo. Não era tanto a impressão física de um impacto desconhecido que me desagradava naquela visão; o que me inquietava era fundamentalmente a interferência que aquele inchaço tinha na identidade dele. Durante as primeiras horas do dia, até mesmo depois do sol já estar quente e de me doerem as pernas da corrida matinal, a deformação mantinha-se. Eu aprendi a viver com ela, porque era o meu papel e porque sabia que tinha de gostar de qualquer coisa nele além do que era visível. Descíamos as escadas soalheiras do prédio em silêncio – ele sempre à frente, eu sempre atrás – até ao café, literalmente da esquina, para engolir duas meias de leite mornas antes de entrarmos no autocarro. Depois de nós, havia sempre o trabalho. Mas, dia sim dia não, o que fazia realmente era sentar-me contrariada à mesa de um estranho que, por acaso, partilhava leves semelhanças com aquele homem que quotidianamente adormecia, pesado, depois de mim. Para minha própria protecção e por precisar de lhe dar mais do que ele já tinha, sorvia muito lentamente o café com leite enquanto imaginava uma espécie de prece ateia na minha cabeça. Ouve-me, que o sono não te seja de pedra; achas que sim, mas não o mereces.

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