Eu e Tristão

Tristão não existe porque fui eu que o inventei. E Tristão debate-se com o mais essencial problema identitário desde que forjei a necessidade da sua existência. Tristão procura-me no cimo das escadas de incêndio e atropela-me de costas durante a noite, mas nunca me encontra. Eu fecho os olhos quando ele cruza a ombreira da porta e concentro-me no colarinho desalinhado da camisa de flores que lhe roubaria do guarda-fatos se ele se adormecesse de uma vez. Tristão finge então que não houve madrugada que tivéssemos rompido, juntos, a ouvir Wagner em surdina. E eu nego-lhe aquele sumo venenoso que me deixou na portaria e ignoro afinal o número de sardas que lhe coroam os ombros. Tristão nunca me encontra sob as luzes estroboscópicas. Penso até que terá perdido o número da porta. Não sei o que faça agora.

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